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Diário de Bordo: o meu primeiro “jinetero”

Começou por nos oferecer charutos, quando numa espécie de mercearia, aberta 24horas, comprávamos tabaco. “São da cooperativa, são mais baratos, lá podes comprar quantos quiseres!”

Na realidade, não existe nenhuma cooperativa em La habana e os charutos oferecidos são de fraca qualidade, feitos com restos de outros charutos ou aqueles que são comercializados internamente: o que se encontram nos cafés, mercearias, um pouco por toda a cidade. Estes são apenas comercializados internamente, na generalidade feitos de tabaco preto e, para ser simpática, fortezinhos! (Mas isto, nós só aprendemos depois!)

Queríamos comer alguma coisa, acabdos de aterrar de uma viagem transatlântica (sim, ainda aqui vamos!) de cerca de 12horas e lá seguimos o enredo. Sabendo – mais ou menos – o que se esperava, aventureiros, mas esperançosos (Tomás, concordas?)

Apresentou-nos aquela que seria a sua esposa e que, nos primeiros 5 minutos, nos perguntou acerca de tudo que pudéssemos ter connosco de valor: dinheiro, câmara fotográfica, telemóvel… Sempre insistindo que bebêssemos um pouco de rum! Rapidamente trocou de interlocutor e começou a falar comigo, continuando o León, seu “esposo”, a falar com o Tomás, animadamente, enquanto passeávamos pelo centro de La Habana. Faziam lembrar os “chicos-espertos” dos bairros portuenses, sempre a chamar-nos de “amigos”, a pôr o braço à nosa volta, num toca, destoca, que não deixa de tocar o braço, o ombro, numa aproximação exagerada que, a mim, me tirava o espaço.

A “esposa” rapidamente se afastou. O “esposo” era um pouco mais insistente, utilizando como base de confiança o facto de ns entregar, caso o quiséssemos guardar, o passaporte ou o cartão de identidade, que nós nunca aceitámos.

Levou-nos a um restaurante, sempre a insistir que consumíssemos. De um conhecido seu, exageradamente caro, embora lhe tenhamos dito que apenas queríamos comer uma sandes ou um hamburguer, algo simples e rápido, para quem acaba de viajar para um universo novo, paralelo e quer descansar antes de entrar nele. O restaurante era pouco impressinante: uma ou duas mesas e, após vermos o menu, levantamo-nos e informamos que íriamos procurar um local para comer. O “esposo” rapidamente correu para nos apanhar, tendo percebido que ia perder aquela “comissão” encaminhou-se/nos para outro local.

Esta foi a nossa primeira tentativa de escapar – bastante ineficaz, confesso! Tentar ser simpático e “dar para trás” é uma dica que, os cubanos, se esforçam por não entender.

Levou-nos, de seguida, a um local mais barato. Um espaço pequeno, escuro, que parecia ser, ao mesmo tempo, bar e casa das empregadas: uma espécie de sala de estar com um balcão para fazer cocktails. Desde que o Raul Castro abriu a possibilidade da iniciativa privada, muitos cubanos abriram pequenos “estabelecimentos comerciais” nas suas próprias casas, em pátios, nas salas, permitindo a entrada de estrangeiros que, de outra forma, não teriam acesso a este universo. O espaço era fechado, no interior da casa, sem janelas. Quando chegamos estava cheio, mas, rapidamente, todas as pessoas que se encontravam no interior, saíram e o “bar” estava agora composto, apenas, por nós os três e as meninas no bar.

A música era um reggaeton que, por Cuba, se ouve em todo o lado, alternando com músicas espanholas, próprias para “bailar”, coisa que os cubanos, aliás, fazem a cada momento, meso quando nos recusamos, mesmo que não demonstremos qualquer interesse, roubando-nos ao nosso “sossego” com um rápido puxão (muito pouco delicado), mas que cumpre a função de nos enterlaçarem a cintura – a partir daí, há que fugir!

Aqui, o León tinha, tal como no local anterior, direito a uma comissão, mas os preços estavam mais de acordo com aquilo que queríamos pagar e os pratos mais próximos daquilo que queríamos comer. Rapidamente, o “dono”, veio ter com o León de modo a indicá-lo no bloco para a respectiva comissão. Voltando à mesa disse-nos: “disse-lhe que éramos amigos, que não era para ganhar dinheiro”. Em Cuba quem se aproxima do turista são, essencialmente, estes “oportunistas encapuçados”. Os restantes cubanos seguem a sua vida normal e raramente têm contacto com os visitantes, o que gera uma desconfiança generalizada entre ambos, criando uma distância que permitiria a troca de opiniões e ideias: o embargo estende-se à relação social!

Pedi uma sandes, a “especial da casa” – a mais barata que tinham – que cnsistia numa mistura improvável de atum, fiambre, queijo e azeitonas e custava, para nós, 3CUC, para um cubano, 3 pesos cubanos. O Tomás e o León beberam, cada um, um mojito (5CUC) que nós assumimos, logo à partida, que nos seria cobrado. O mojito (o mais caro que bebemos em La Habana!) não era, confesso, nada de especial, sobretudo tendo em conta os que fomos bebendo nos dias seguintes.

Sempre sob insistência do León para que consumíssemos – o que não voltou a acontecer – foi-nos perguntando que espécie de relação tínhamos (conversa que tivémos com todos os cubanos que nos foram aparecendo no decorrer dos 15 dias) e, apercebendo-se que éramos só amigos, fez aquilo que todos os cubanos, sem excepção, fizeram  durante o decorrer das férias: falou-nos das cubanas e dos cubanos “os melhores amantes do mundo”.

A noite terminou connosco a decidir que já chegava, que íriamos comprar tabaco, otivo principal que nos levou a sair de casa desde o início. O León ofereceu-se para nos comprar o tabaco, como se de uma delicadeza se tratasse, mas pedindo bem mais do que aquilo que era necessário para o comprar. Segundo ele, num qualquer local, seríamos cobrados a dobrar (o que ele de facto estava a fazer!), pelo simples facto de sermos turistas. Para isso, pediu-nos 3CUC (o tabaco custa 1,20CUC) e ficou com o remanescente.

Durante toda a noite não deixou de falar das cooperativas nde iríamos comprar os charutos e que nós já havíamos descartado mais que uma vez.

Terminamos a noite a voltar para o apartamento, não sem antes nos pedir a morada que recusamos entregar, dizendo que tinhamos “amigos cubanos” que vinham ter connosco pela manhã bem cedo e que, por isso, não precisávamos dos seus préstimos enquanto guia turístico ou qualquer espécie de apoio logístico – que não deixamos de agradecer.

Face à recusa tentou de tudo para que ficássemos, desde a insistência nas cooperativas, ao pedido último de dinheiro para comer que, a muito custo, recusamos com o argumento de que, se tivesse fome, não teria pedido um mojito, tinha pedido uma sandes e que a teríamos pago de boa vontade.

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Diário de Bordo: Cuba

Chegada a Cuba, La Habana. havana.airport

Um calor que se cola ao corpo e uma humidade constante contribui para um atordoar de sentimentos que giram entre os nervos de quem acaba de aterrar num destino muitas vezes sonhado, o cansaço de quem não dorme há mais horas do que aquilo que deveria, o torpor do corpo de uma viagem de 16horas (Lisboa-Madrid, Madrid-La Habana) com uma noite sem dormir pelo meio e a alegria e excitação da chegada a um país novo.

O ar da noite propõe uma languidez muito própria: um calor que se cola ao corpo e uma humidade constante tornam o ar da noite pesado, quase como se custasse respirar.

Saímos de mochila às costas e apanhamos um táxi. Não há, ou parece não haver, outra forma de chegar ao centro de La Habana. O Sr. Léon e a sua esposa já nos esperavam: um contacto de uma colega de trabalho do Tomás, cubana, que vive em Palma de Maiorca.

Pelo caminho passamos descampados, campos, palmeiras e, ao longe, vemos luzes e pequenas casas a aproximarem-se lentamente. O cheiro a gasolina é intoxicante dentro de um carro que, pelos “nossos Ocidentais lados” há muito que seria carro de colecção, de um vermelho intenso.

IMG_0798 Quando nos deixa na “casa particular” (arrendada através dos conhecimentos da mesma amiga) cobra-nos 25CUC e diz-nos que este é um “preço de amigo”, com desconto. O custo da viagem são na realidade 30CUC. De facto, o custo foi o cobrado, são 25CUC, sem qualquer desconto, coisa que ambos já sabíamos, mas agradecemos-lhe a “atenção”. Tenta ainda convencer-nos a ficar na “casa particular” que tem para arrendar, em vez daquela que tinhamos já apalavrado, ou a que mudemos para lá nos próximos dias se a casa para onde vamos não tiver condições.

IMG_0799

Em Cuba, o turista é sempre encarado como tendo melhores possibilidades (que, tendo em conta os ordenados, de facto tem), bastando aterrar no aeroporto para se assumir que somos ricos – o conceito de riqueza tem sempre bastantes variantes, consoante o local de origem, a chegada, o custo de vida e outras variantes. Na “Ilha Vermelha”, o sistema implementado de duas moedas, o CUC (Peso Convertível) e o CUP (Peso Cubano), facilita o processo de aproveitamento financeiro do viajante incauto que acaba de “ali pôr o seu pézinho”.

 

1CUC equivale a cerca de 1Euro e, ao turista, quase sempre lhe é apresentado este valor em recibo. O cubano utiliza o CUP, sendo cada 1CUP o equivalente a 24CUC e o suficiente para uma refeição, 24 cafés ou 22 ovos.fotografia 1fotografia 2

Este sistema de moeda – os Pesos Convertíveis e os Pesos Cubanos – separam dois mundos e são, per se, a face mais visível de duas sociedades, dois mundos paralelos que coexistem e, assim, se cruzam sem nunca deixar de marcar bem a diferença e sem que nunca nos esqueçamos, por mais cubanos que pareçamos, somos turistas em terras de revolucionários.

 

 

 

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Lisbon calling: we have a lift off

Tomás e Eu - lift off embaixada passaporte

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Diário de Bordo: Cuba

Hoje voo para Cuba. De Lisboa a Madrid. De Madrid a La Habana.
 

Cuba_map

Desde há muitos anos, quando me descobri “de esquerda”, que era um país que queria visitar: a “Ilha Vermelha”. Confesso que me faz sonhar. Não espero encontrar lá a resposta à esquerda, às suas perdas, aos seus ganhos ou a qualquer beco na construção de uma sociedade mais justa, mas quero falar com os cubanos: os mais velhos, os mais novos, aqueles que fazem parte do Partido, aqueles que fazem parte de uma revolução, agora, com 56 anos e que vivem, orgulhosos, como os únicos da região capazes de vencer uma investida dos Estados Unidos e de sobreviver ao mais long embargo económico da história.

Uma ilha, perdida no tempo, no espaço, algures numa política muito moldada por esse embargo, mas também por homens e mulheres que acreditaram ser possível fazer diferente. E é com esses que quero falar. Saber como sonharam a sua revolução, como lutaram por ela e o que dela lembram com mais carinho, o que dela guardam com mais orgulho e aquilo que, por impossibilidade, por cansaço, por incapacidade, não foram capazes de alcançar – ainda?

Quero ver casas, carros, pessoas que vivem naquilo que me descreveram como uma suspensão no tempo, como uma identidade muito própria, num paralelo espaço-temporal só possível se, por artes mágicas, fôssemos enviados para um período diferente: aquele em que tudo era possível, aquele em que tudo estava em contrução e todos e todas acreditavam que “o dia de amanhã era impossível de roubar”.

E tenho medo… que não seja assim tão romantizado, que me desiluda, que não consiga encontrar, entre esses últimos redutos sobreviventes de uma época, a força e a vontade de lutar.

Quero abraçar uma cultura com os braços bem abertos, num abraço apertado, sem prender…

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