O tempo das Syrizas

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Como esperado, o Syriza foi o grande vencedor das eleições gregas. Da sua vitória, dos mais alarmistas aos mais esperançosos, tudo se viu e se leu, passando pelo debate do não cumprimentos das quotas. (Mais do que ter ou não ter mulheres nas suas listas, o debate é o cumprimento ou não cumprimento das quotas. Esquece-se o óbvio: e quotas para outras minorias/ discriminações?)

Não é claro que o Syriza consiga implementar o programa que o fez ganhar estas eleições. Varoufakis já alterou e readaptou e reajustou aquilo que era o programa inicial várias vezes.

Mas mais importante que tudo isso, é a ruptura que representa. É o corte com a chantagem da dívida, é a defesa do Povo em oposição a elites económicas, financeiras e políticas que se degladiam para manter um estatuto, um status quo, enquanto a maioria de nós se mata para chegar ao final do mês para lá das contas da casa, da comida e de um ou outro “luxo” (tabaco, jantar fora uma vez, ir ao cinema…).

Para a Grécia, esta foi um importante passo na vitória sobre o bipartidarismo, o PASOK e a Nova Democracia, no poder há 40 anos – qualquer semelhança com este pedacinho de terra à beira mar plantado não é pura coincidência.

Depois, mostra o falhanço das políticas de austeridade implementadas pela TROIKA através do cartel eleitoralista auto-insuflado pelos votantes centristas que durante décadas foram alimentados por uma distribuição de “despojos políticos”. O bipartidarismo unido, em prol da implementação de medidas de austeridade, através cartelização da politica sofre o seu primeiro rebate na Grécia: programas iguais, medidas semelhantes, nenhuma alternativa – a base de apoio eleitoral encolhe.

Em Espanha, o Podemos está agora à frente nas sondagens. Diz-se um partido diferente, de cidadania, que ouve as pessoas e aplica o seu programa em prol das mesmas. Também o Podemos já alterou várias das suas medidas iniciais. Deixou de as representar assim? Deixou de se apresentar como uma alternativa? Não para os eleitores. Quem aponta isso como um partido com intuito meramente eleitoralista tem, como é óbvio, razão, mas a ilusão e a esperança numa alteração da política é, per se, argumento suficientemente válido para que não se fechem os olhos a uma onda de mudança à esquerda. (Concordemos ou não com os programas, as quotas, o quão sexys são os elementos do governo – de 1 a 10, entre Tsipras e Varoufakis? Blhec!)

O Syriza é o primeiro (de muitos? Vários?) a quebrar o cartel político. A Grécia pode ser um espaço especial, muito derivado ao colapso económico, mas é uma porta que se abre num mar de falta de alternativas. A notícia da morte da Troika pode ser exagerada, mas o longo caminho para o fim de um sistema eleitoral comatoso pode estar a ficar entreaberto. E esse é o meu tempo preferido, o das cerejas…

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