Da felicidade dos outros

Nada exalta mais as pessoas como o feminismo. E isso inclui os e as feministas. O que mais se vê, ouve, escreve sobre feminismo vem de feministas que debatem entre si (constantemente) sobre se ou não o feminismo é inclusivo, intersectorial e diversificado o suficiente, e se as preocupações de uma mulher [cisgénero] branca, de classe média, recebe ou não atenção desproporcional em espaços feministas comparados com os de mulheres de baixo rendimento, mulheres trans, e as mulheres de cor. Mas estes debates permanecem confinados a círculos de justiça feministas e sociais.

O tipo de debates” feministas debates” a que o públiconão-feminista” é exposto giram principalmente em torno de duas coisas: a questão dos efeitos supostamente prejudiciais do feminismo sobre as crianças e a família nuclear, e a questão de haver ou não o feminismo, deixando subjacente a questão do seu  “Falhanço”. Face a esta última surgem geralmente e pelo menos três perguntas adicionais: Será que o Feminismo entregou (“a brancas, de classe média, mulheres cisgénero) o que prometeu? As mulheres são muito melhores hoje do que eram antes? Em outras palavras, as mulheres são mais felizes?

Esta última questão é particularmente interessante, porque se baseia na premissa de que “felicidade” – em algum sentido temporal, imediato da palabra – é, ou deveria ser, o objetivo final na vida. Pior, assume que cada um de nós sabe o que é a felicidade e como a mesma se deve reflectir nas vidas que não são nossas. Assume, sobre os restantes, uma moral acerca do que contribuirá mais ou menos para o bem-estar, a dita felicidade, de terceiros, des desconhecidos e desconhecidas, de pessoas que nunca vimos ou nos cruzamos antes.

O mais interessante aqui é o interrogatório do pressuposto de que o movimento feminista e o seu sucesso pode e deve ser medido em termos de felicidade auto-relatada das mulheres.

Um bom lugar para começar é com as ditas “estórias”, daquelas que toda a gente conhece ou que já ouviu – qual mito urbano. Alguém que se casou quando tinha dezanove anos e teve seu primeiro filho no final daquele ano. Era financeiramente dependente do parceiro e foi para a totalidade da sua vida adulta. Enquanto ele trabalhava, ela era dona de casa, tinha momentos de lazer, lia, tomava conta das crianças, arrumava a casa… A possibilidade de um outro tipo de vida não parece nunca ter ocorrido a esta pessoa e enquanto eu tenho días em que me arrepio só de pensar em tal existência, esta pessoa, se lhe perguntassem, se calhar diria que é extremamente feliz. Nem todas as donas de casa terão a mesma perspectiva e, embora o trabalho doméstico seja realmente importante, nem todos optaremos por ele. Ter um emprego, diz-se, é mais “stressante”. Um trabalho assalariado, do qual se pode ser demitido e que ocupa as nossas horas, por vezes (demasiadas), em tarefas repetitivas e desgastantes. Da mesma forma, alguém que se casa com o seu primeiro namorado aos vinte pode considerar-se que é mais fácil do que navegar no mundo do namoro e romance, com o risco que pode encontrar alguém, pelo menos não por muito tempo e com as pessoas à volta a perguntar o “porquê” de se ser solteira, se “não nos queremos casar”, se “…”.

A autonomia é mais desgastante do que não-autonomia. Mas é a solução para renunciar a autonomia? Não para mim.

Com a liberdade vem a responsabilidade, com a liberdade vem o risco.

Às vezes eu faço boas escolhas, às vezes eu faço escolhas péssimas, mas de qualquer forma, são as minhas escolhas.

“Eu prefiro dormir com alguém do que arrepender-me de nunca dormir com ninguém.”Eu não vou viver a minha vida preocupada com o meu futuro na comercialização que é o mercado de casamento, mesmo que os estudos mostrem que as pessoas casadas são mais felizes do que as pessoas solteiras.” “Eu prefiro adiar o casamento e filhos, para completar a minha educação e continuar a minha carreira do que adiar a minha educação e carreira para casar e ter filhos.” “Eu não sou de ninguém nem ninguém é meu.” “Quem quiser estar comigo terá de me respeitar, não me ler, perguntar.” “Eu já perdi amores assim, por ser independente, por acharem que sou libre de mais.” “Eu prefiro levantar-me cedo todos os dias e trabalhar num escritorio que esmaga a alma do que depender de outrém, não importa o quão encantador possa ser.”

O que me leva ao meu próximo ponto: Podemos, por favor, falar de outra coisa? Eu não digo que a felicidade não é importante, mas enquanto o público “não-feminista” está fixado em discutir se deve ou não o movimento feminista fazer as mulheres mais felizes, as mulheres não são mais felizes, seja lá o que isso significará. O movimento feminista luta por liberdade reprodutiva, agressões que têm consequências nefastas para a saúde das mulheres, para aumentar a representação mediática das pessoas trans.


Esqueçamos a “felicidade” por um segundo mulheres que morrem de abortos mal feitos em países onde não podem obtê-los legalmente.Há que fazer a luta pelos direitos reprodutivos. Vamos falar sobre as pessoas trans que são assassinadas em taxas repugnantemente altas. Há que combater a transfobia e chamar a atenção para a violência do ódio trans. O feminismo está longe de ser perfeito, mas a existencia de movimento contribui para mais justiça, igualdade, um mundo melhor. E isso é um indicador de um movimento social bem sucedido. Ninguém pregunta se alguém por ser sindicalizado é mais feliz. Se por ser militante de um partido é mais feliz.

A verdade é que, embora o JAS represente uma ideia de organização social que vale a pena perceber e ter em conta na organização das lutas sociais a vir. A “felicidade”, no entanto, não é passível de ser medida por alguém além de quem a vive. O que a mim me faz feliz pode ser bastante diferente da felicidade para outra pessoa e vice-versa. Na verdade, JAS não discute feminismo, por que não é capaz. A sociedade para JAS é a mera organização social de acordo com a sua própria moral. E nessa não há lugar para mulheres emancipadas, mas há lugar para pessoas que se arrogam a saber da felicidade dos outros e a controla-la, a opinar sobre a mesma, a por isso discute-se a felicidade, quem sabe a salvação das pessoas mesquinhas, pequeninas, com pequenos problemas de inferiodade e cuja pilinha, pequena e provavelmente pouco proletária, não vou insultar.

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