Monthly Archives: March 2013

Das manifestações e notas de rodapé…

Ao som de uma Grândola, ontem saímos à rua.

Milhares de pessoas, contra este Governo que, dentro da legítimidade democrática que o voto e as eleições lhe conferem, é ilegítimo por não cumprir o Programa Eleitoral votado. Quanto mais tempo pode um Governo manter-se à frente de um país desrespeitando e enganando o Povo que o elegeu?

Milhares de pessoas, contra este Memorando da Troika que se esquece que não só a política, mas também a economia, é feita pelo Povo e o Povo, sem dinheiro, não faz circular o capital. Louis XIV, com um objectivo completamente diferente, dizia: “L´etat c’est moi”. Hoje, faz falta relembrar, que o Estado, somos nós e que o Povo é quem mais ordena.

Ontem combatemos uma política violenta, que ataca os mais jovens e os leva a emigrar. Nesta manifestação, já não se falou nos jovens que sairam à rua, falou-se de um povo, envelhecido, em dor, mas orgulhoso, que saiu à rua, para gritar contra o “estado a que chegamos”, porque não esquece a memória viva, dos direitos ganhos em revoltas populares, porque não quebra e se levanta, altivo e indignado, contra a insensibilidade deste Governo, destas políticas.

liberdade

Como nota de rodapé, e para demonstrar que os políticos não são todos iguais, é ler o PS (entenda-se que o trocadilho podia até ter alguma piada, não fosse, de si, triste!), do Tiago Mota Saraiva no 5.dias (https://5dias.wordpress.com/2013/03/03/se-o-governo-nao-cai-a-bem-e-porque-so-caira-a-mal/), porque eu, de facto, não o conseguiria dizer melhor. Há momentos lamentáveis em Política, Jamila Madeira…

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Dos Apelos a Manifestações | Não quero falar de Política

Enrolo um cigarro e olho para a mesma folha em branco.
Não sei o que escrever, nem onde começar. Sei que não quero falar de política.
Não quero falar de política. Quero falar da dona Maria («bom dia minha filha!» — diz-me quando passo por ela na rua), que vai perder a casa por não conseguir pagar a renda com o novo aumento.
Não quero falar de política. Quero falar do Sr. Luís, que fechou esta semana a mercearia: «mais de 50 anos à frente deste balcão, ainda o meu pai geria a Florida» — diz, como se a loja tivesse personalidade — «e já eu ajudava depois das aulas». Os clientes diminuem, «já não dá para as despesas…» — diz de lágrima no canto do olho.
Não quero falar de política. Quero falar da Filipa, que está à minha frente na fila para pagar a Segurança Social, trabalhadora a recibos-verdes, que ganha 485 euros por mês e, depois de pagar os impostos, não consegue quase alimentar a Joana, a filha de um ano e meio que traz ao colo: «quanto é que ela já deve à troika, sabe?» — pergunta-me. Voltou para casa dos pais com o marido.
Não quero falar de política. Quero falar do António, que desistiu da universidade, porque não consegue pagar as propinas nem arranjar trabalho. Lembro-me de ser estudante e ter pago o curso a trabalhar… «A educação agora é só para quem pode» — diz entre dentes.
Não quero falar de política. Quero falar de quem entrega os filhos, por ser incapaz de os alimentar.
Não quero falar de política. Quero falar da dona Rosa, cuja reforma «mal me dá para os medicamentos» — queixa-se…
Não quero falar de política. Quero falar da minha mãe, que está desempregada e sem subsídio de desemprego e é «demasiado velha para o “mercado”». E tem 48 anos!
Não quero falar de política. Quero falar da Ana e do João, que dependem do apoio dos vizinhos: «ai! Se a Dona Lurdinhas não me convidasse para jantar, não sei o que faria»… A Ana trabalha, o João ficou desempregado, têm dois filhos.
Não quero falar de política. Quero falar daqueles e daquelas que revertem todo o seu ordenado para pagar uma dívida que não é nossa e que nos oprime.
Não quero falar de política. Quero falar das pessoas que dormem um pouco por todo o lado nas ruas de Lisboa, do Porto e que «aguentam».
Não quero falar de política. Quero falar daqueles e daquelas de quem ninguém fala, enquanto há força, enquanto há esperança.
Não quero falar de política. Quero que a política fale de nós, seja feita para nós e nos sirva. Quero que a política traga no seu coração o povo e que o povo seja quem mais ordene, dentro de ti, ó país.
Não quero falar de política. Quero falar de um sonho de futuro que nos roubam. Quero falar da esperança que ainda tenho.
Não quero falar de política, mas acredito que ela só pode ser feita por todos e todas nós, de cidadania em punho, em cada pessoa.
Não quero falar de política, mas tudo é político, e esquecer isso é esquecer que somos parte dela. Não quero falar de política, mas falei. Quero falar de ti, de mim, de nós e ter o teu ombro lado a lado comigo nas ruas neste dia 2 de Março.

www.queselixeatroika.net
#queselixeatroika #qslt2013

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