“Mundo Maravilhoso dos Mercados”: Quero uma Aspirina de Empreendedorismo, ó faxabore!

Eu até nem sou muito dada a misticismos, mas há aqueles que, vivendo da crença dos discursos dominantes dos tempos actuais, me fascinam. Um deles e o mais comum, é o Empreendedorismo!

Cavaco defende que jovens empreendedores são o garante da economia, in Público http://www.publico.pt/politica/noticia/cavaco-defende-que-jovens-empreendedores-sao-o-garante-da-economia-1579930

Cavaco defende que jovens empreendedores são o garante da economia, in Público http://www.publico.pt/politica/noticia/cavaco-defende-que-jovens-empreendedores-sao-o-garante-da-economia-1579930

 

Vivemos, dizem, “no melhor dos tempos”, aquele que permite, com uma ideia inovadora, que nos tornemos o que antes era denominado o “Sonho Americano”: o “Self-made Man/ Woman”.

O Empreendedorismo é o novo “pózinho de perlimpimpim”, a solução para todos os problemas das economias periféricas. Senão vejamos, empreender é:

– criar novas firmas que serão competitivas no mercado, pelo seu núcleo inovador, que contribuirão para uma concorrência positiva e saudável, despoletará a “efervescência” económica; a eficiência e a produtividade seguir-se-ão impulsionando um “Boom” de criação de emprego e de aumento de produção.

Contudo, no mundo real, onde os “pózinhos de perlimpimpim” escasseiam, há pressupostos a ter em conta que, por detrás de um conceito pomposo (quem não fica maravilhado com a sonoridade de “Empreendedorismo”?), teimam em colocar entraves ao mais idiota dos empreendedores.

O primeiro trata-se da “inovação” per se. Nenhuma ideia é inovadora, até prova em contrário, diria um advogado de defesa! A única forma de se saber se uma ideia é inovadora é lançá-la no mercado e ver como reage e se adapta à “mão invisível” do Adam Smith. Mais, é muito improvável que uma pequena empresa, acabada de surgir, seja capaz de ter capacidade de investimento em pesquisa e desenvolvimento para propiciar essa mesma inovação – a não ser que o Empreendedor seja, já de si, rico!

O Empreendedorismo é também a fórmula mágica para aumentar a concorrência e tornar o mercado mais competitivo. Ora, num mercado com procura estabelecida ou, no nosso caso, em clara recessão, uma grande empresa, já estabelecida, tem a preferência e a confiança da grande maioria dos consumidores, estabelecendo uma luta “David contra Golias” com os novos e inovadores empreendedores. E se, na fábula original, o jovem David tem um golpe de sorte e com a sua fisga derruba o gigante Golias, no “Mundo Maravilhoso dos Mercados” não há reis, nem princesas, nem dragões e muito menos fisgas, fadas ou fórmulas mágicas para o crescimento económico.

A peregrinação para o Empreendedorismo, “O” caminho para a criação de emprego, é por isso, feito de joelhos: numa economia em recessão, em que a capacidade de investimento das classes mais baixas e médias é mínima, em que os empréstimos bancários são praticamente impossíveis sem apresentação de garantias bancárias, será que se eu for a um balcão de uma qualquer agência bancária com uma ideia inovadora como garantia, tenho acesso a capital para investir, pelo simples facto de ser idiota?

A grande falácia do conceito do Empreendedorismo parte de um pressuposto que passa, não só de “boca em boca”, mas, mais grave ainda, de Manual de Economia em Manual de Economia: a ideia de que o mercado é a soma das decisões individuais das empresas, como se estas vivessem num mundo só delas, em que o crescimento e a produção e o lucro fosse um “milagre da divisão do pão”, esquecendo (quiçá) que a economia deve servir o povo, os consumidores, para se auto-nutrir e que sem consumidores, não existe nem Mercado, nem Economia – da mesma forma que sem cidadãos/ população, não há Estado!

Não são os empreendedores os “Salvadores da Pátria”, qual Dom Sebastião que agora sai do nevoeiro, criadores de emprego,  de concorrência, de competitividade e produtividade, como se, só pelo facto de respirarem, tivessem na mão a solução para todos os males da economia. São os consumidores que, comprando os produtos de dada empresa, contribuem para o aumento dos lucros que, bem gerido, permite o investimento, a criação de novos produtos, a venda de stocks, a necessidade de aumento da estrutura para fazer face à procura e, por força maior, a criação de emprego.

SE a empresa não crescer, se os consumidores não comprarem, se continuarmos a perder poder de compra, a procura diminui, a oferta acumula-se e, não só não se criam novos empregos, como os que (ainda) existem ficam ameaçados. O Empreendedorismo é uma cortina de fumo, uma palavra bonita de conforto, uma imagem para lavar as vistas que não colhe num mundo de consumidores sem dinheiro, de destruição da classe média, de perda de poder de compra e de bancos que não querem financiar a economia, mas antes, quais vampiros, lhe sugam toda a “efervescência”.

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