Saio sem “Medo do Futuro”

O Portugal de hoje prolonga o Antigo Regime.

Foi Salazar que ensinou a irresponsabilidade – reduzindo-nos a crianças grandes: “Se soubesses o que custa mandar, quererias para sempre obedecer”. Aquilo que ditava o ideal moral do Salazar: uma sucessão de actos obscuros, cujo valor era tanto mais quanto estes se faziam modestos, humildes, despercebidos…

“O Salazarismo foi uma doença de espírito que pôs de rastos a população deste país.” (José Gil)

Durante o Salazarismo, o “espaço público” foi  mutilado, até desaparecer sob golpes de censura e de proibições à liberdade de associação e expressão. Foi engolido por uma fachada de anestesia e de obediência generalizadas. O espaço de expressão livre extinguiu-se ou funcionou em pequenos grupos (terroristas, rebeldes!) sempre envenenados pelo medo, pelo sufoco, impedindo-nos de crescer e existir.

O 25 de Abril recusou-se a inscrever no real os 48 anos de autoritarismo Salazarista. Não houve julgamentos de PIDEs nem de responsáveis do antigo regime. Um “nevoeiro” cobriu a realidade repressiva. Assim se apagou das consciências e da vida a guerra colonial, os crimes, a cultura do medo e a pequenez medíocre que o Salazarismo construiu. Mas não se constrói uma amnésia colectiva, sem que estas reproduzam os mesmos, ou outros, estigmas que testemunham o que se quis apagar e insistem em permanecer.

Se se diz que os” politicos são todos iguais” e “que nada pode mudar apesar das liberdades conquistadas”, é porque muito se herdou e se mantém das antigas inércias e mentalidades da época da ditadura: desde o medo, que sobrevive com outras formas, à “irresponsabilidade” que predomina ainda nos comportamentos dos portugueses.

Foi assim que o discurso político dominou a vida, apoderando-se da sociedade civil, identificando todo o poder com o poder político, obrigando a existência individual ou colectiva, a passar por este. Não há espaço público porque está nas mãos de um “grupo” cujo discurso alimenta a inércia e o respeitinho, trabalhando para a manutenção e controlo de um “estatuto”. O espaço público não é o lugar da opinião pública nem de manifestações colectivas. É a palavra “público” que não convém. O espaço público faz falta em Portugal.

Nada tem realmente importância, nada é irremediável… O ministro (a “chico-espertice portuguesa”) que se aproveita ilegalmente de uma lei para escapar ao fisco e se demite para voltar à tona incólume; a austeridade que nos corta a felicidade; a mãe que passa fome para dar aos filhos a “sardinha para oito”….

E tudo acontece sem que os conflitos rebentem, sem que as consciências gritem, porque tudo está na “impunidade do tempo” – como se o tempo fosse remédio para o esquecimento do que está à vista.

É por isto que saio à rua dia 15 de Setembro.

Saio por uma mudança de mentalidades. Saio porque não suporto mais ficar em casa, enquanto me dizem que a soberania nos foi roubada, quando ela está inscrita na Constituição da República de Portugal e pertence ao Povo. Saio porque a existência do indivíduo implica acção, afirmação e decisão, para que possamos conquistar autonomia e sentido. Saio porque a Democracia não se faz só nas urnas, mas sim na vida quotidiana, com a nossa indignação, com a nossa participação. Saio porque a minha voz tem de ser ouvida, e basta (!) de abafarem o nosso grito. Saio porque eu, tu, ela, ele, nós somos uma força que não pode ser esquecida e construímos Portugal, todos os dias, com o nosso esforço, com o nosso suor. Saio pelo meu futuro e pelo teu. Saio porque sei até onde este programa de “ajustamento estrutural” pode ir e já não aguento mais. Saio porque o Estado Português se esqueceu que a sua responsabilidade primária é para com a sua população e não para com os credores. Saio porque não consigo viver no Portugal de “Ontem”. Saio porque, um dia, um filho ou filha minha me há-de perguntar: “Porque não lutaste pelos meus direitos, pela minha liberdade, pelo meu futuro?”

Saio porque “CHEGA, BASTA de viver sempre à Rasca”. Saio porque não posso mais. Saio, porque o teu ombro, junto ao meu, é força de mudança!

Imagem de Artigo 21º

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2 Comments

Filed under Here, Não Violência - Pacifismo, Politics, Resistência, Thoughts and outpourings

2 responses to “Saio sem “Medo do Futuro”

  1. PauloGuedes

    Reblogged this on O Olho de Camões.

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