Um Salazar em cada esquina…

Um Salazar em cada esquina - foto de Tiago Lemos Peixoto

Um Salazar em cada esquina – foto de Tiago Lemos Peixoto

Ouve-se, cada vez mais, entre todas as classes sociais, que “o que faz falta em Portugal é um Salazar!” – diz-me a D. Rosa, senhora dos seus 82 anos, a subir a rua em direcção ao Bairro Alto.

“Não menina, não é o ditador, é o ministro das finanças! – diz-me a senhora do café.

O “grande estadista” que ordenou as contas públicas do país, numa altura em que Portugal precisava de um “pulso forte para organizar a economia e as finanças”. – diz-me um senhor no autocarro.

Esta é uma das maiores falácias da nossa história, e ele há dias em que não estamos, não conseguimos e não queremos, ouvir barbaridades destas!

Antes de mais é preciso ter em conta que crescimento económico que não represente desenvolvimento e melhoria das condições de vida das pessoas não é um resultado económico que seja positivo per se. Do mesmo modo que, qualquer equilíbrio das contas públicas, conseguido através da miséria e fome de um povo, é um crime económico e social.

Deste modo, ainda que contas honestas e equilibradas não possam justificar a violência física, cultural e económica do Antigo Regime, importa perceber que o dogma do equilíbrio financeiro na qual a “reputação de grande estadista” do ditador Salazar se baseia é uma farsa, fruto de propaganda e marketing do Estado.

O equilíbrio das finanças públicas coloniais não resultava de um domínio profundo das finanças do Estado e da ciência económica; resultava, pura e simplesmente, de um desbaste das matérias-primas das colónias (ouro, petróleo, diamantes…) sem qualquer investimento para desenvolvimento em qualquer sociedade – leia-se colónias ultramarinas ou em Portugal continental. Mais, baseia-se em negócios duvidosos entre o governo português e outros fascismos da Europa que punham em causa a vida de milhões de pessoas, com as quais “fazíamos dinheiro” sem olhar a meios.

Os principais gastos do regime foram em benefício directo do próprio regime e dos seus interesses coloniais: desde subsídios às exportações da metrópole, aos gastos com a Guerra Colonial que visavam manter o regime ditatorial e o domínio sobre o império. Foi um período negro da nossa história, de pobreza, miséria, falta de acesso à educação e à saúde, sem direitos laborais, sociais e económicos para a maior parte da população, de violência, de exclusão…

Em tempos de regresso aos dogmas austeritários das finanças e políticas públicas, é fundamental o olhar crítico para lá dos discursos oficiais e dos comentadores e “opinion-makers”. Compreender o que se esconde nestes discursos é fundamental para revelar o que se esconde na “inevitabilidade”, no memorando da Troika e em políticas públicas de destruição do código de trabalho e da Constituição portuguesa.

Há muita história mal contada que precisa de ser corrigida, para todos nos libertarmos desta ditadura cultural em que vivemos. A amnésia histórica prende-nos ao passado e às mentiras do mesmo e para uma sociedade evoluir e se libertar tem de conhecer os processos que a levaram até onde se encontra hoje! Uma nova consciência política, social, económica e financeira é “o que faz falta” e não é, nem nunca será, um novo Salazar que nô-la trará!

 

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Filed under Here, My Everyday, Politics, Thoughts and outpourings

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