Pelos meus olhos, conto-te como foi … a Musgueira

A polícia de intervenção quebrou o piquete da Carris na Musgueira

Quando chegámos já lá estava a PSP. Não eram muitos, uns 6 ou 7 talvez!

Os autocarros não podiam passar. As pessoas acumulavam-se à sua frente e a Carris fez várias tentativas: primeiro era só um carro que queria passar, depois ia passar por uma outra saída, depois a PSP aproximou-se e informou que “não queria usar a força para restringir a reivindicação dos nossos direitos” (tal e qual!) e que iria chamar a Polícia de intervenção para nos afastar do local se nos recusássemos a sair.

Não saímos, tod@s juntas, tod@s nós, as 40 (?) pessoas permanecemos no local, em frente a uma coluna de autocarros que se avolumava – serviços mínimos, chamavam-lhes!

A polícia de intervenção chegou. Sete carros, com homens armados, com homens em “armaduras”.

Sentamos-nos no chão, de braços dados, junt@s, e naquele momento, éramos um@ só! Mas eles eram muitos e arrastaram-nos um@ a um@. Não foi uma carga policial, mas foi certamente agressão. Uma de nós levou um murro, vários de nós foram atirados para o chão. Eu fui arrancada à cadeia: não conseguiram soltar-me ao início, e agarraram-me pelas costelas, que estão agora negras e doridas.

Mas foi uma força, um compromisso, uma união, todo um sentimento de pertença e compreensão que ali se criou, toda uma aura de força enquanto junt@s procurávamos impedir que os nossos direitos – que também são os deles – nos fossem roubados! Direitos pelos quais muitos antes de nós lutaram, e muitos antes de nós morreram. Criaram um cordão à nossa volta, impuseram-se pela pressão directa, corpo a corpo.

Sentamos-nos novamente.

A situação acalmou-se e levantámos-nos.

De pé gritava-se:

– 25 de Abril sempre, Fascismo nunca mais! E outras palavras de ordem.

Eles não nos conseguiam olhar nos olhos, e os nossos olhos incrédulos viram mais de 50 autocarros passar. Os serviços mínimos foram desrespeitados pela carris que coagiu os seus condutores a trabalhar dizendo-lhes que o contracto que iam renovar, não seria renovado se não cumprissem com as suas funções! Os condutores cederam e com isso quebraram, mostraram que o medo persiste, mostraram que a chantagem existe!

Permanecemos de pé, frente ao cordão, a procurar os olhos da polícia de intervenção, que agora já não saiam do chão, que estavam colados ao alcatrão. Dizia-se para o cordão envergonhado: eu sou precária, os teus filhos vão ser escravos desta dívida que nos impõem, de um trabalho sem direitos, de um regredir social que nos colocará ao nível do séc. XIX. Colocará a tua família na minha posição, talvez pior que a minha! Também luto pelos teus direitos, Sr. Agente! A ti que te impõem lutar contra os teus, defender quem te ofende de quem te defende, levantares-te de manhã para te dividir por dentro, porque também tu sentes os duros golpes, os duros cortes a que nos obrigam, enquanto uns quantos (poucos, esses!) vivem acima das nossas possibilidades.

E nesse momento, uma lágrima escorreu-lhe pela face…

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